Monitoramento econômico e gerencial das principais cadeias produtivas do agronegócio brasileiro.
Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil · Serviço Nacional de Aprendizagem Rural.
Um dos principais gargalos na gestão econômica da pecuária de corte está associado à identificação dos chamados "gastos invisíveis", drenos que muitas vezes não são percebidos pelo produtor, mas acabam prejudicando o desempenho financeiro da atividade. Em sistemas de cria, um exemplo claro disso são as vacas vazias que permanecem na propriedade após o período de reprodução. Fêmeas que, além de não gerarem receita naquele ciclo produtivo, ocupam área e consomem recursos que poderiam ser destinados a animais que estão de fato em produção.
Fêmeas improdutivas ocupam área e consomem recursos sem gerar receita no ciclo produtivo.
Drenos financeiros que frequentemente passam despercebidos pelo produtor rural, impactando o resultado da atividade.
Compreender e mensurar o impacto financeiro da retenção de fêmeas improdutivas é essencial para a sustentabilidade do sistema.
A partir dos dados coletados nos levantamentos realizados pelo Projeto Campo Futuro, estima-se que a média do custo de manutenção de uma vaca solteira no ano é de R$ 385,00 por animal, considerando-se os gastos anuais e as taxas de depreciação. Dentro desses custos, destacam-se os gastos com a alimentação, que englobam desde os manejos das pastagens até a suplementação mineral do rebanho e que representam, em média, 55% do gasto anual desta categoria. Isto é equivalente a uma média de R$ 17,50 por cabeça por mês dispendidos apenas para alimentar um animal que não irá parir naquele ano, encarecendo a atividade sem gerar nenhum retorno efetivo.
Média do custo de manutenção de uma vaca solteira no ano (gastos anuais + depreciação)
Proporção representada pela alimentação (pastagens + suplementação mineral) no custo anual da categoria
Média mensal dispendida apenas com alimentação de um animal que não irá parir naquele ano
Vale ressaltar que dificilmente um sistema de cria consegue atingir 100% de fêmeas prenhas em um ano, o que gera, em todas as safras, um certo número de fêmeas vazias. Esse percentual pode ser maior ou menor de acordo com os índices produtivos observados na propriedade. Entretanto, o destino dado a essas fêmeas pode ser o diferencial no sucesso financeiro da propriedade, pois o produtor pode optar pelo descarte do animal, o que gera alguma receita com sua venda e abre espaço para a entrada de uma potencial fêmea jovem no rebanho, ou pode optar pela manutenção dessa fêmea no sistema, assumindo os gastos que teve com ela naquele ano, mas sem obter, em contrapartida, nenhum tipo de receita.
Gera receita com a venda do animal e abre espaço para a entrada de uma potencial fêmea jovem no rebanho, contribuindo para a renovação e melhoria dos índices produtivos da propriedade.
O produtor assume os gastos incorridos com a fêmea naquele ano sem obter, em contrapartida, nenhum tipo de receita. O animal continua demandando alimento, mão de obra e manejo, impactando diretamente o Custo Operacional Total.
Dentre as 53 propriedades típicas de cria analisadas, observou-se que 32% mantiveram cerca de metade das vacas vazias no sistema, enquanto 42% retiveram mais de 60% dessas vacas para o ano seguinte. Essa retenção gera um impacto direto sobre os custos do sistema, uma vez que esses animais continuam demandando alimento, mão de obra e manejo, mesmo sem contribuir com a receita naquele período. De fato, alguém precisa pagar essa conta. Assim, observou-se que um número maior de vacas vazias retidas no ano tende a impactar o Custo Operacional Total (COT) tanto por hectare quanto por quilo de bezerros desmamados na propriedade.
Propriedades típicas de cria avaliadas no levantamento do Projeto Campo Futuro
Mantiveram cerca de metade das vacas vazias no sistema para o ano seguinte
Retiveram mais de 60% das vacas vazias para o ano seguinte, pressionando fortemente os custos
Proporção de propriedades que apresentaram taxa de desmama superior a 70%, revelando o gargalo reprodutivo predominante

Mas o que leva à retenção dessas fêmeas na fazenda? De maneira geral, um dos cenários mais recorrentes está relacionado à dificuldade do produtor em realizar uma gestão eficiente da reprodução do rebanho. Essa situação é principalmente observada em propriedades que não possuem uma estação de monta bem definida, muitas vezes mantendo o touro junto às vacas durante todo o ano, o que pode dificultar a identificação de fêmeas falhas, prolongando a sua permanência no rebanho na tentativa de obter uma prenhez.
Outro cenário potencial é quando o produtor eventualmente identifica uma fêmea vazia ao final do período reprodutivo, mas opta por não realizar seu descarte, sob a justificativa de "dar mais uma chance" ao animal. Embora essa decisão possa parecer uma forma de preservar os investimentos feitos até então para a produção de uma matriz, na prática, a permanência prolongada de uma fêmea improdutiva representa um custo contínuo para o sistema.
Propriedades que mantêm o touro junto às vacas durante todo o ano dificultam a identificação de fêmeas falhas, prolongando sua permanência no rebanho na tentativa de obter prenhez.
O produtor identifica a fêmea vazia ao final do período reprodutivo, mas opta por não realizar o descarte. Embora pareça preservar investimentos, a permanência prolongada de uma fêmea improdutiva representa um custo contínuo para o sistema.
Esses "erros" de manejo proporcionam menor taxa de prenhez ao longo do ano, acumulando custos de animais que não irão gerar receita na propriedade, culminando em menores níveis de Margem Líquida por unidade de área.
De maneira geral, esses "erros" de manejo proporcionam uma menor taxa de prenhez ao longo do ano. Dentre as propriedades analisadas, apenas 25% apresentaram taxa de desmama superior a 70%, demonstrando o gargalo que boa parte das propriedades avaliadas enfrenta quanto às suas estratégias reprodutivas. Como consequência, acabam se tornando sistemas com baixos índices reprodutivos, acumulando custos de animais que não irão gerar receita na propriedade, culminando em menores níveis de Margem Líquida (ML) por unidade de área.
Diante desse cenário, conclui-se que a identificação e o descarte adequado das vacas improdutivas devem ser considerados não apenas como uma estratégia de manejo do rebanho, mas também como uma importante ferramenta de gestão econômica. É fundamental que o produtor compreenda o impacto financeiro da retenção de fêmeas improdutivas e utilize ferramentas de gestão que permitam maior controle sobre o desempenho reprodutivo do rebanho.
Dentre as principais estratégias, destaca-se o estabelecimento de uma estação de monta bem definida, que permita concentrar o período de exposição de fêmeas a touros reprodutores e que estabeleça um momento específico para avaliação das fêmeas. Com isso, ao final deste período, é possível identificar com precisão quais vacas emprenharam e quais permaneceram vazias, o que, por sua vez, torna o processo de seleção e descarte mais assertivo. Com isso, a propriedade reduz o percentual de animais que não contribuem para a geração de receita e otimiza o direcionamento e uso de insumos e recursos disponíveis para animais produtivos, resultado que se traduz em maior eficiência para o sistema de cria como um todo.
Concentrar o período de exposição de fêmeas a touros reprodutores e estabelecer um momento específico para avaliação das fêmeas ao final do período reprodutivo, permitindo identificar com precisão quais vacas emprenharam e quais permaneceram vazias.
Reduzir o percentual de animais que não contribuem para a geração de receita, otimizando o direcionamento e uso de insumos e recursos disponíveis para animais produtivos.
Utilizar ferramentas de gestão que permitam maior controle sobre o desempenho reprodutivo do rebanho, traduzindo-se em maior eficiência para o sistema de cria como um todo.
"A identificação e o descarte adequado das vacas improdutivas devem ser considerados não apenas como uma estratégia de manejo do rebanho, mas também como uma importante ferramenta de gestão econômica."
Reprodução permitida desde que citada a fonte: Projeto Campo Futuro – CNA/Senar. Elaboração: Cepea - Esalq/USP, Sistema CNA/Senar.